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Quinta-feira à noite no programa Na Moral, comandado pelo apresentador Pedro Bial, foi discutido o tema “A ditadura da Felicidade”, onde a ideia principal foi mostrar certa obrigação que a sociedade e as redes sociais impõem às pessoas para que estas estejam constantemente felizes. Até aí, tudo bem, pois realmente existe uma cultura de felicidade imediata e a qualquer preço que promove as emoções positivas e a supressão da tristeza como sendo a única fórmula para a felicidade. No entanto, apesar de ter havido algumas discussões interessantes, o programa cometeu uma série de equívocos em relação aos temas e aos convidados apresentados. Penso que vale a pena debater mais sobre o assunto, por isso seguem as minhas interpretações.

A Monja

Na primeira etapa do programa, os convidados (um pai e uma filha) foram experimentar algumas técnicas budistas de meditação que prometem trazer paz e felicidade. O pai, que é um cético assumido, achou a experiência “muito chata”, segundo ele. A filha se abriu um pouco mais para a experiência, aproveitando e apreciando alguns momentos. A monja foi convidada a estar no palco do programa, mas não conseguiu falar nem meio minuto, sendo interrompida pelo Bial a todo momento. Toda experiência é válida. No entanto, experiência sem significado se torna vazia. A prática da meditação deve vir como consequência da vontade e do entendimento de que aquilo que buscamos está dentro de nós (segue link para um artigo científico sobre o tema http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1414-98932009000200006&script=sci_arttext ). Sem esse entendimento e essa busca, qualquer prática meditativa se torna chata e traz até mesmo mais ansiedade. Então, colocar pessoas despreparadas e sem vontade de experenciar este momento, está fadado ao fracasso. Tive a impressão de que o programa queria mostrar que esta filosofia e estas práticas não são tão eficazes assim.

A Psicologia Positiva

Na segunda parte do programa, Bial afirma que a Psicologia Positiva é o novo “Hit” da indústria da Felicidade, ignorando o fato de que este movimento da psicologia tem sua origem no estudo da motivação humana, da autorrealização, da busca de sentido há, pelo menos, 50 anos (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X2007000100002&lng=pt&nrm=iso ). A resiliência, as forças pessoais, o bem-estar psicológico e a felicidade são construtos pesquisados cientificamente e exaustivamente por psicólogos do mundo todo ( http://www.ufrgs.br/psico-laboratorio/), e os exercícios diários derivados destas pesquisas são formas de aproximar a ciência da população para que esta se beneficie do seu conhecimento. Além disso, Bial afirma que a psicologia positiva prega que para ser feliz basta fingir que já se é feliz. Gostaria de saber de qual fonte (errônea) o apresentador ou a equipe do programa bebem suas informações. Dos milhares de artigos e livros que já li sobre o tema, jamais vi nada parecido com essa afirmação. Pelo contrário, a psicologia positiva é a ciência da autenticidade, muito mais do que da felicidade. Ser aquilo que se é e fazer aquilo que lhe traz satisfação verdadeira é o grande ensinamento que a psicologia quer trazer para as pessoas. Só assim se atinge a felicidade autêntica. O ponto alto deste bloco foram as leituras das cartas de gratidão que pai e filha escreveram um para o outro. Esta é uma versão de um exercício fantástico associado não somente à emoções positivas, mas a construção de relacionamentos positivos, aumento da satisfação com a vida e do bem estar ao longo de várias semanas depois do acontecido.

O médico

No terceiro bloco um psiquiatra foi convidado para falar sobre a epidemia atual de depressão e o aumento da venda de medicamentos. Este realmente é um problema, a meu ver, de saúde pública, pois a venda indiscriminada de medicamentos tarja preta é muito perigosa. A busca por uma felicidade imediata faz com que as pessoas consumam medicamentos e, até mesmo, drogas a fim de conseguir alivio rápido de seus sintomas incômodos. A questão é que estes sintomas, na maioria das vezes, estão denunciando pensamentos, crenças e atitudes que devem ser revistos e repensados, pois não são mais funcionais para a pessoa. E todos sabemos que essas reflexões não podem ser feitas sob efeito de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas.

O escritor

No último bloco do programa, Bial recebeu o autor do livro Ser feliz hoje, que se propõe a refletir sobre o imperativo atual da felicidade. Ambos questionam a obrigação de sermos felizes e de termos que sentir emoções positivas. O autor afirma que a psicologia positiva “rotula” a tristeza, a raiva, o medo como emoções negativas e como algo que não devemos sentir, afirmando que pessoas felizes podem ficar tristes. Em primeiro lugar a psicologia não rotula nada, pelo contrário, a psicologia positiva declara que as emoções positivas e negativas têm a sua função própria, específica e evolucionista (http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/778/77827103.pdf ).  Ambas são importantes para o indivíduo e devem ser vivenciadas sem repressão. A questão é que, assim como se sabe que pessoas com determinadas doenças mentais e sofrimento psíquico experimentam mais emoções negativas do que positivas no seu dia-a-dia, pessoas felizes apresentam mais emoções positivas do que negativas no seu dia-a-dia. E como as emoções estão diretamente ligadas aos pensamentos e as interpretações que damos para os acontecimentos, é natural e lógico que pessoas otimistas, esperançosas, gratas, sintam-se mais felizes do que as pessimistas, julgadoras, egoístas.

Para finalizar o programa, Bial dá a sua versão do que é felicidade, dizendo, entre outras coisas, que a felicidade não estava nos planos da natureza, é uma invenção humana. Definitivamente não concordo com esta afirmação. A natureza exala felicidade, ou melhor, ela é a própria felicidade. Ela não pensa na felicidade, ela simplesmente vive a felicidade inerente à vida, ao momento presente, à benção de estar vivo independente das condições que a cercam. O dia em que o homem parar de buscar, pensar e apenas se permitir sentir essa felicidade, não precisaremos mais de palavras, fórmulas e dicas para sermos felizes.

Abs

Lívia Lucas

One Response to Na Moral, Pedro Bial e a felicidade

  1. Maria Conceição Vaz Fialho says:

    Muito bom! Excelentes as suas considerações!! Sou acadêmica de Psicologia da FACOS – Osório. Sou aluna da Prof. Bruna Monêgo.

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